Thursday, August 23, 2007

sobre voltar pra casa

Às vezes me pego impressionada comigo mesma, com o tempo dentro de mim. Acho que só agora, passado quase meio ano depois da minha ida a Espanha, onde talvez pela primeira vez eu tenha me sentido em casa comigo mesma (sentimento que nem sempre perdura), só agora sinto vontade e me dedico a voltar pra casa. Sinto agora, quando em vez de estar vendo tv, como costumamos fazer quase sempre, ela (quem mora comigo) foi pro quarto fazer outra coisa. Justo hoje que eu resolvi fazer outra coisa também. E hoje, que diferente de ontem não estou tendo crise de fome maldita, ela também não está. Veja, não é dizer que ela faz a partir de mim, ou eu dela, é que fazemos juntos. Às vezes me impressiono com ela. Ela quer fazer junto, tanto quanto eu. E talvez estejamos conseguindo. Devagar e aos trancos.
Eu falei pra ela dos dias no hospital na Espanha, hoje. Ela confessou a curiosidade. Ela pinta os cabelos, eu faço banho de assento. Rimos do ridículo e choramos o difícil da vida. Agora mesmo passou com a mão na cabeça por mim. Mostrei pra ela o cheiro do shampoo da minha infância, ela me confessou truques de costura.
Nesses dias que não tenho vontade de falar com ninguém e não atendo a nada (talvez esteja perdendo chances de trabalho, os últimos talvez que vão me chamar. Como você é fatalista!), nos refugiamos no que chamamos de casa. Vamos deixar essa, construir outra, decidimos, e talvez isso, tenha nos movido um pouco rumo a alguma coisa.
Eu dizia a ela dos deslocamentos outro dia e do não pertencer, ela disse com um sorriso no rosto:
-sinta-se mais em casa!
Eu sorri.
Falei com meu avô hoje, senti-me tão distante. Tentei falar com minha mãe, ninguém me atendeu. Tu-tu-tu-tu-tu-tu. Ninguém. Pareceu-me alguma coisa.
Sinto-me tão sem ao que me agarrar, e ao mesmo tempo não é desespero de uma pessoa que vai se afogando o que sinto agora. Pensei em retomar as provas. Contas a pagar. Pensar na decoração, ver apartamentos, com calma dessa vez, e a cara de animação dela, mesmo quando nos falam de um preço impossível em um apartamento de um quarto só. A cara de vontade de ir só por curiosidade. Se ela pudesse conhecia todas as casas do bairro. E eu junto, pra dizer o quanto aquilo tudo é impossível e bonito.
Me dá ganas de llorar.

1 Comments:

Blogger Cintia said...

Seu texto me deu uma melancolia... mas uma melancolia gostosa, sabe? Aquela coisa que a gente lê com um sorriso dançando nos lábios e com ares de quem lê uma carta de uma pessoa querida. Algumas coisas a gente reconhece em si, outras a gente fica pensando como deve ser sentir.
Um abraço pra você (e pra ela)!

11:16 AM  

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