Tuesday, March 13, 2007

cartas mofadas

algum dia de 2007, subúrbio de paris


querida amiga,

mando notícia de meus semi-exilos, enquanto imagino em imagens toscas como estaria sua vida por aí. e a de todos mais.
tenho me impressionado com a minha capacidade de acomodação. Tens dias em que acordo tão mal disposta que não levanto da cama. Lá fico, estico um braço leio um livro e espero alguem chegar. As vezes chegam. as vezes, já voltei a dormir de novo. E certa de que o melhor a fazer quando indisposta é não me dispor a nada mesmo.
Esses dias tem sido frequentes.

não me arrependo de nada. Igualmente não ambiciono nada, nesses dias.
Ontem fui pega de surpresa. Uma amiga se aproximou (e eu que nao ando me aproximando de nada se não com uma boa distancia), tirou um cílio e me pediu que fizesse um pedido. pensei, pensei, e pedi para o meu humor melhorar. Que pouca coisa, não querida amiga?

Tenho também, recebido alguns elogios, de ótimo caráter. Pessoas otimas a faze-los, tanto da ordem estética quanto da intelectual. E sabe como é? eu sempre tenho a impressão de que estamos falando de uma outra pessoa.
agradeço com um sorriso cordial, como se falassemos de uma parente minha que já morreu.
Daquelas pessoas que sobem no palco pra receber um prêmio por um parente falecido, sabe?
será que aí as pessoas ainda se dão premios?
nunca entendi bem (mais) esse sistema lógico.

Ao que tudo parece, me disseram, o grande esforço que julgava estar fazendo em me expressar e demonstrar mais o que sinto, foi um grande fiasco. Acho que desisti então. Também, nao poderia haver outro caminho, nesses dias que me sinto absolutamente sem nada a dizer.

Ontem chorei num ônibus, pensava em algo que já mal lembro, ouvindo uma música. Uma mulher que mal conseguia manejar um bebê, tao lindo que dava tristeza, sentada a minha frente. A filha dela veio seguindo ela. Se alojou entre nós. Sorria, mal encarava o bebê mau ajambrado. Eu sorria pra ele. Alguem perguntou para a mulher "é seu?". silencio constrangedor. A menina envergonhada quase como quem levanta o dedo pedindo licença disse: não. ele é meu. E virou os olhos pra janela afora. E me olhou, logo em seguida, pra ver o que achava.
Eu sorri.
ora, não achava nada daquela menina.
mas senti uma dor. Uma coisa que vinha daquela vergonha e não-contato dela com aquele bebê. Com a mãe, que não sabia como deitar a criança. a criança, tão linda.
chorei.
e como desejei sair daquele ônibus.

a vontade de voltar correndo para minha cama tem sido tão mais constante que a vontade de lá ficar, que considero, que nem vale, nem vale.

hoje acordei já à tarde com um susto. olhei o teto e diante da minha incapacidade de me levantar, pensei: estou mesmo péssima.

ó querida, ando tão ácida.
vou acabar escrevendo e fotografando só os mofos das minhas próprias unhas, as minhas pintas falhadas.

- acho que falhei.


assinardo em cruz que eu não sei escrever, como arnesto.


esperando notícias sua dessas terras, que sempre, em outro tempo.
esse tempo. talvez assunto da proxima.
oh, a próxima.

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