Saturday, August 12, 2006

impressões do Rio 2 (post um dia atrasado)

Voltava no ônibus em uma das viagens mais tediosas de minha vida. Primeira vez do motorista, ele fez um típico Rio-SãoPaulo durar sete horas. Quando desci do ônibus, um tanto mal humorada, ouvi algo que não pude segurar a gargalhada.
Enquanto o homem se entendia com o ônibus de como abrir a porta de saída, uma mulher olhou pra mim e disse "pelo amor de deus, ele é um sádico!".

agora em minha casa já.


Mas o que quero tentar falar nada tem a ver com o final da viagem.
ainda não.

Vinha a 60 kilometros por hora e lembrei de uma frase de gabriel, que já perdida nos fatos e tempos, talvez não tenha sido dita nem mesmo nessa ida ao Rio.
Ele olhou para mim e disse com uma cara séria: "temos que arrumar um jeito, inventar um jeito, está todo mundo vivendo mal demais."
(aqui, gabriel querido, a licença poética, jamais conseguiria recordar a frase exata)

A frase caiu no meu colo, enquanto eu olhava pela janela.
Pensei nas pessoas de que gosto, nas pessoas que admiro. Entendi o que gabriel quis dizer. Todas estão mal. Todas as pessoas que admiro e que tentam ou tentaram escapar da mediocridade estão vivendo mal. Jogadas pelo mundo.

são tempos estranhos claro.
essa classe média que vai sendo extinguida, e um monte de desempregados de classe.

lembrei-me do "25 watts" da dupla Juán Pablo Rebella e Pablo Stoll, os mesmos do whisky. Juán Pablo acaba de se suicidar.
Quando saí do filme lembro-me bem da sensação de que era um filme muito "uruguaio".
Aquela juventude perdida, vivendo de sub-empregos, sem ter nada pra fazer durante os dias, sem ter nada pra pensar além das sub-tramas de uma vida. Um país cujo o único registro no guinness é de um alguém que ficou 15 horas (nao sei precisamente) batendo palmas.
"Mas porque ele batia palmas?" "sei lá"

De repente tive a certeza de que o filme falava muito mais além do uruguai.
Talvez de toda a América Latina não sei. E entendi Juán. Entendi tanto que sinto a necessidade de rever o filme.

As palmas que não aplaudem nada. Apenas aplaudem. Uma tarde onde não se faz nada, se bebe. Uma vida que não parece caminhar à lugar nenhum e que ainda sim vive.
E aquela vó, velha zumbi, que não fala mais nada. Que já, enquanto representante dos nossos desatualizados valores morais, quando quer entrar no banheiro, nem percebe que ele está bêbado vomitando lá dentro. Apenas senta-se do lado de fora e dorme.
Ou quando olha para o filme pornô na tv, não vê.

Talvez eu também esteja batendo palmas e seja essa a única coisa digna na minha vida de entrar pro guinness.

2 Comments:

Blogger rodrigo said...

duas coisas:
uma: o inglês desse post do jotabê, que eu achei simbólico de como às vezes eu me sinto.
(http://blog.estadao.com.br/blog/index.php?blog=17&title=o_homem_que_cavava_tuneis_no_proprio_ass&more=1&c=1&tb=1&pb=1)
outra: essa é a mesma impressão que eu tenho, todo mundo tá vivendo mal demais, e pior, escolhendo viver assim, o que não é justificável nem pela falta de opções...
e + uma terceira, vc escreve bem mesmo...

8:36 PM  
Blogger rodrigo said...

sai errado o link, então vai aqui:
http://blog.estadao.com.br/blog/index.php?blog=17
e acha p post "CAVANDO TÚNEIS NO PRÓPRIO ASSOALHO"

8:40 PM  

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