Thursday, July 27, 2006

subúrbio de Paris,
manhã de 27 de julho,

Querida,

lhe escrevo por ter encontrado aqui, entre meus recortes de jornais antigos, algo que me lembrou de ti.

"Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas./ Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina./(...) Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos./No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha./(...) Na copa, uma prima passa a ferro todas as mortalhas da família./(...)/ No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha./ E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo; trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos./ Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa./ Antes que ele acorde e se descubra também morto."
(J.P.P)


Minha mãe esteve aqui ontem.
Ainda minha mãe, de tantas recordações. Assim como você hoje, ontem me lembrei dela.
Saiu há pouco de minha casa com um sorriso no rosto, e agora, sei lá quem voltará no fim da tarde.
Ela, você, ou mesmo eu.
Faz tempo que Eu não sai por essa porta e volta com a tranquilidade de ser apenas ele mesmo.

acendo-lhe um cigarro em homenagem, amiga minha.
Paris anda aquecendo-se, com a calma de uma vida que se (trans)forma.




São Paulo, Brasil
manhã de um dia confundido no tempo,

O prazer de escrever me volta a invadir.

Ontem, alguém me emocionou ao dar-me uma lágrima.
a guardei dentro do bolso do casaco sem que percebesse.

Talvez eu esteja sendo corajosa pela primeira vez na vida.

mamãe gostou da casa, gostou das meninas, gostou da gata. Mamãe gostou principalmente de tomar caldinho no restaurante ao lado.
Mamãe quer ter certeza de que estou feliz com sua presença.
Mamãe aprende a me conhecer, ontem, pela primeira vez.

Tomei uma cerveja e fumei um cigarro.

Ela disse algo grave, que achei de muito peso.
Alguém lhe disse uma vez, que jamais a perdoaria por ter uma outra filha, sem ter sido consultado.


Os processos humanos chegam a ser tão previsíveis que me embrulham.
E embrulhada fico.
Apenas a esperar o laçarote na cabeça, afim de ser o patético arremate final.




Algum lugar do mundo,
o dia não consta,


Maria Clara, esperamos ansiosamente por você.


E aqui, cito meus recortes de novo. Sem a menor preocupação de alguém ler e entender erroneamente o que eu não quero dizer, e ao que não me refiro.

"Como voltar se as cidades são tempo, não espaço?"


(Não) estou voltando pra lugar nenhum. Com laçarotes e recortes debaixo de um dos braços.
A lágrima, aqui, junto ao peito.

De resto,
uma foto de vovô, em meio a seus cartões de purpurina.

Um sorriso que nasce no canto da boca.

3 Comments:

Blogger Carolina said...

Bela Bunda! hahaha

Que bom que você voltou... Me anima muito.

Até

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